terça-feira, 26 de abril de 2011

ROGÉRIO RABELLO - A nova face da música romântica


Na postagem anterior, ao falar da fase que atravessa atualmente a nossa música popular, eu terminei escrevendo: “Que novos tempos venham logo para o nosso mercado de música popular”... Agora trago um bom exemplo do que estamos deixando de ganhar, enquanto as gravadoras cada vez investem menos em qualidade, em busca de “estouros” cada vez mais descartáveis. Não fosse o cenário independente e os veículos de divulgação de música pela internet, cada vez teríamos menos trabalhos como esse que vou apresentar aqui. A lástima é que, sem o marketing das grandes gravadoras, esses trabalhos acabam não chegando à grande massa.
Até o final dos anos 80, as emissoras de FM mais populares exibiam um panorama do Brasil, representado por diversos estilos que tinham em comum a qualidade e a identificação com as classes mais populares, numa prova de que pra ser popular não precisa perder qualidade. Tínhamos nordestinos, como Fágner e Zé Ramalho; o Pará de Fafá; o sul na música de Kleytom & Kledir e no MPBRock dos Engenheiros do Hawai; as Minas Gerais de Milton; a Bahia de Caetano e Gil; o zen-surfismo de Lulu Santos; o Rock dos Titãs e do Barão; a MPB de Ivan, Gonzaguinha, Simone e João Bosco e, finalmente, o romantismo.
Além do romantismo mais assumido de Roberto Carlos, José Augusto, Joanna, Gilliard, Julio Iglesias (esse não é brasileiro, mas era como se fosse) e de Fábio Júnior, todos os estilos e artistas tinham o amor, seja lá em qual de suas formas, como um dos temas principais. Aliás, parece que naquele tempo esse tema era sim bastante popular. Uma novela na TV, por exemplo, pra fazer sucesso e dar audiência, tinha que ter doses certas de beijos e lágrimas. Isso, em algum lugar ficou perdido. Hoje, as pessoas parecem ter vergonha de falar nesse assunto. Ser romântico, então... Bem, isso já parte pra uma discussão sobre o comportamento humano... Mas, limitando o nosso assunto à música, o fato é que hoje praticamente não existe mais a música propriamente dita Romântica. A música com algo de romântico, que se faz hoje, é acompanhada de outras influências e rotulada como sertaneja, pagode, brega ou outro estilo, mas a música pura e simplesmente romântica quase já não se ouve.
É nesse campo, de cantores autenticamente românticos, que Rogério Rabello aparece, preenchendo uma lacuna que só não é ainda maior graças à sobrevivência de poucos daqueles mesmos antigos artistas, como Roberto Carlos e Fábio Jr.
Com produção caprichada e arranjos de ícones como Lincoln Olivetti, Torcuato Mariano e Ricardo Leão, o trabalho de Rogério Rabello permanece ainda inédito, aguardando contrato com alguma gravadora. No entanto, tem sido divulgado pelo próprio artista através da internet, em sites como o “MySpace” Confira no link: ( http://br.myspace.com/rogeriorabello/music )
A voz de Rogério tem alguns dos ingredientes mais importantes para o estilo: É delicada, sem agressividade, não é empostada nem é rebuscada com artifícios como vibratos. É aquela voz direta, que canta como quem fala ao ouvido. É uma voz leve, sem graves, mas aveludada, que se encaixa na medida ideal para as músicas mais românticas. Uma dosada mistura de José Augusto, Roberto Carlos e Serginho Herval (do Roupa Nova).
Lincoln Olivetti, também conhecido como “O mago do Pop”, empresta ao intérprete sua composição em parceria com Robson Jorge e Mauro Motta, “Eu e Ela”, que foi gravada em 1984 por Roberto Carlos. Nessa releitura, os arranjos de Lincoln, que é conceituado por seu trabalho com sintetizadores eletrônicos, dão à música uma sonoridade moderna e suave. No entanto, mesmo fazendo uma considerável atualização na música, ele mantém também alguns detalhes de fácil identificação com o arranjo original. É uma das principais faixas desse trabalho.
Em “Bodas de Papel”, o intérprete mostra, de forma mais evidente, forte influência de José Augusto, numa canção que, em sua letra, comemora um ano de um relacionamento que começou sem pretensão de ser duradouro. “Minha Superstar”, da safra de músicas sensuais de Roberto e Erasmo, ganha mais suavidade numa releitura que começa com uma atmosfera próxima à da bossa nova, mas que parte para um pop delicado e envolvente, com arranjo de Torcuato Mariano. Já a música “Água de Rio”, com violões ritmados num estilo meio “folk”, fala de um amor mais “brejeiro” e mistura ao seu romantismo, pitadas de algum ingrediente vindo da seara de poetas como Sá & Guarabyra. “Por Aí”, de autoria do próprio intérprete, em parceria com Pedrinho Periquito, canta a liberdade de viver apenas buscando aventuras amorosas “por aí”. Tanto na letra quanto no ritmo, demonstra uma latinidade mais “caliente”, que lembra Alejandro Sanz.
Mas nem só de doces paixões e aventuras vive a música romântica. Nenhum cantor romântico pode se rotular assim se não tiver em seu repertório uma boa dose de dor de cotovelo. E ela se faz presente em canções lacrimosas, como “A Falta Que Você Me Faz”, canção que pede a reconciliação com aquela que, depois de uma briga, sequer atende seu telefonema. O desgaste de um relacionamento que atravessa grande crise também é cantado em “Momentos de Paixão”, música de Paulo Debétio e Paulinho Rezende, gravada em 1990 por José Augusto (“Não há bonança sem tempestade/ Cedo ou mais tarde tudo isso vai passar”). A música revive também uma característica aliada à música romântica, que teve o pioneirismo da dupla Roberto e Erasmo: Aquela de que o sujeito, pra esquecer o problema afetivo, pega o carro e pisa fundo sem destino definido.
Deve Ser Você”, uma versão de Rogério Rabello para “It Might Be You”, de Alan Bergman, Merilyn Bergman e Dave Grusin, que foi tema do filme “Tootsie” em 1982, surge como ótima surpresa. A letra, que fala da descoberta de um novo amor, encaixa-se na música de forma que nem parece ser versão. Dá a impressão de já ter nascido com essa letra. Já “Estrelas de Outubro” é uma belíssima regravação, com arranjo de Ricardo Leão e Lincoln Olivetti, para uma música de Paulo Debétio e Paulinho Rezende que foi gravada por Selma Reis.
Por incrível que pareça, uma das melhores faixas desse trabalho, não está disponível na internet. Apenas o CD de demonstração do artista inclui a alegre “Nossa Energia Está no Ar”, com um ritmo mais envolvente e contagiante, que revive os melhores momentos da fase inicial e mais musical de Lulu Santos. Espero que na ocasião de seu lançamento (ainda acredito que alguma gravadora o contrate) essa música seja trabalhada.
É interessante notar que as músicas de seu repertório abrangem praticamente todas as etapas de um relacionamento amoroso. Desde seu despertar, em “Deve ser Você”, o começo em “Eu e Ela”, o primeiro ano, em “Bodas de Papel”, a fase mais sensual, em “Minha Superstar”, as brigas com separações temporárias em “A Falta que Você me Faz”, o desgaste do relacionamento em “Momentos de Paixão”, até o final que resulta numa separação definitiva em “É Melhor Assim”. Essa última pode ser colocada na mesma prateleira de músicas como “Tolo” e “Do Fundo do Meu Coração” (de Roberto Carlos), “Separação” (de José Augusto, mas conhecida na voz de Simone) e “Bilhete” (de Ivan Lins) – aquela de músicas de cortar os pulsos, em que se coloca um ponto final numa relação. A interpretação (graças a Deus) não é tão sofrida quanto poderia ser. Sorte daqueles que estiverem passando por uma separação e vão ouvir a música. Vão sofrer um pouquinho menos. Mesmo assim, para quem sofre de dor-de-cotovelo, essa música é ainda melhor acompanhada de um copo de Gim.
Pronto. Com todos esses ingredientes, está servido um saboroso trabalho de música autenticamente romântica. Para todas as fases, desde o despertar de uma paixão até a fossa da separação. Na página de Rogério Rabello no “MySpace”, na seção de comentários, o primeiro que se lê é o do músico Alexey Michailowsky, figura tarimbada e conhecida na internet, nos fóruns onde se discute sobre música. Eis o que ele diz: Tá aí o cara que veio preencher uma lacuna de cantores românticos do bem, que não são bregas, seguindo uma tradição que ficou perdida em algum ponto dos anos 80. Consegue ir de Roberto Carlos a Ronnie Von, passando por Fábio Jr., Gilliard e o saudoso Prêntice sem escorregar. É o cara!!!.
Eu assino embaixo.

2 comentários:

Márcia Tristão-Bennett disse...

Marlos,


Primeiro lugar, gostei de voce entrar para o status de blogueiro e com assuntos interessantes - musica, lancamentos. Nao querendo desmerecer o blog de ninguem, porque quem sou eu para tanto, mas ha blogs que nao sao tao interessantes, como poderiam ser. Ainda mais quando nao se ha muito tempo nas maos. E voce sabe que gosto de ler sobre os trabalhos de musicos, o que estao colocando no mercado, como pensam os musicos, a imagem que querem passar no mercado, enfim, gosto de tudo isto,...e adoro curtir shows! Quem nao gosta!!!!!!!

Adorei a sua apresentacao do novo musico da musica romantica. Que descricao! Tudo muito detalhado! Com certeza vou conferir Rogerio Rabello! Assim como Fabio Jr.

Abracosmusicias!!!!!!!!!!!!!!

Armindo Guimarães disse...

Olá, Amigão!
Parabéns pelo blog e pela apresentação.
Muito fixe!
:)
Abração