sábado, 2 de novembro de 2013

JOHNNY MATHIS - Sending You A Little Christmas


Com excelência de produção e repertório, foi lançado na última terça-feira, 29 de Outubro, o novo álbum do cantor Johnny Mathis – um dos artistas mais consagrados dos Estados Unidos, que está no patamar de Frank Sinatra, Tony Bennett e Andy Williams.  Em comparação com os artistas do Brasil, para o público norte-americano ele figura como um Roberto Carlos ou um Emílio Santiago – Dos artistas muito populares, com um público fiel e mais selecionado. Não está tão presente nas paradas de sucesso atuais, mas continua vendendo muito e lotando casas de espetáculo. E, a despeito de seus 78 anos de idade e 57 de carreira, Mathis continua em plena atividade, cantando com o mesmo desempenho vocal e gravando com crescente qualidade de produção.
 Mathis ao lado do produtor Fred Mollin.

Não é a primeira vez que Johnny Mathis grava um disco com repertório todo dedicado a canções de Natal. Mathis já lançou 5 álbuns semelhantes anteriormente, em 1958, 1963, 1969, 1986 e 2002.  Mas “Sending You A Little Christmas” (o 6º com temática natalina, sem contar as coletâneas e reedições) demonstra, principalmente, a evolução do cantor em termos de produção de seus discos, comparado aos anteriores.  Mathis tem o mérito de se adaptar ao seu tempo sem perder sua essência, com arranjos atuais mas requintados, sem abrir mão de orquestra de cordas e metais, mas aliando a orquestra com instrumentos de sonoridade moderna, como teclados eletrônicos e guitarras semi-acústicas.

 Mathis e a cantora gospel Amy Grant
Para completar o clima de confraternização de Natal, Mathis conta com algumas participações especiais. Billy Joel participa na faixa de abertura do CD, “The Christmas Song (Chestnuts Rosting on an Open Fire)” canção que descreve todo o cenário da ceia da noite de natal.  Em  “Have Yourself a Merry Little Christmas” é a vez de Nathalie Cole dividir os vocais com Johnny Mathis. A cantora Gloria Estefan participa de “Mary’s Boy Child”, que descreve a história do nascimento de Jesus. Já o veterano grupo vocal “The Jordanaires” faz sua participação na tradicional “Home for the Hollidays”. A música gospel está representada pelos cantores evangélicos de influência Country - Vince Gill e Amy Grant, que participam do medley “I’ll Be Home For Christmas/White Christmas”. Jim Brickman participa da faixa título, “Sending You A Little Christmas”, ao piano e no vocal de apoio. Mas o principal destaque, entre as participações especiais nesse disco, é o dueto em “Do You Hear What I Hear?” de Johnny Mathis com Susan Boyle, cantora escocesa que se tornou célebre repentinamente por sua participação no programa de calouros britânico “Britain’s Got Talent” em 2009.  Sua apresentação no programa, precedida de certo preconceito por sua aparência desleixada e comportamento inseguro, se tornou um dos vídeos mais assistidos na internet e seu disco de estreia bateu records de venda.  Agora, Susan se consagra mais uma vez entre os grandes nomes da música ao ser convidada por Johnny Mathis para seu novo disco. Mathis também participa da música “When A Child Is Born” (canção com a qual ele mesmo fez muito sucesso nos anos 70), no novo álbum da cantora, que será lançado no próximo dia 25 de Novembro – álbum esse também dedicado a canções de natal.

O grupo vocal "The Jordanaires"
gravando "Home For Hollidays"
Apesar de todas as faixas do disco terem o natal como tema, Mathis consegue não perder sua veia romântica, em pelo menos duas das canções: Na faixa-título do CD e em “Merry Christmas Darling”, ambas que falam de uma pessoa amada que está distante no natal. Podem até serem interpretadas como sendo sobre alguém da família – um filho, por exemplo – mas na voz de Johnny Mathis é impossível não se firmarem como músicas que falam de um casal que está separado durante o natal. Em “Sending You A Little Christmas”, o interlocutor prepara todos os detalhes para a noite de natal ao gosto da pessoa que está longe e envia, através do pensamento e em uma oração, desejos de paz e luz para aquela pessoa. Já em “Merry Christmas Darling”, originalmente lançada pelos Carpenters, ele faz um pedido especial de natal: Estar novamente com a pessoa que hoje está longe.  É principalmente em canções como essas que se destaca a força de sua interpretação, em que, além de simplesmente cantar bem, ele consegue imprimir com exatidão a emoção adequada ao que a letra diz. Consegue-se sentir com clareza onde há uma lágrima ou onde há um sorriso em cada uma das palavras cantadas.  Em “I’ll Be Home For Christmas” também há, mais ou menos, o mesmo clima. Porém é o próprio interlocutor que está longe e promete voltar pra casa para o natal.

Johnny Mathis e Jim Brickman,
nos estúdios "Capitol", em Los Angeles
Para encerrar o disco, Johnny Mathis deixa uma mensagem de esperança não apenas para o natal, mas pra ser lembrada em qualquer momento – principalmente nos mais difíceis: “Count Your Blessings” aconselha - com interpretação e arranjo que se assemelham a uma canção de ninar - que, quando estiver preocupado, sem conseguir dormir, se conte as bênçãos adquiridas, em vez de carneirinhos, olhando a vida pelo lado bom e não pelo pessimismo.
 Scott Lavender conduzindo a orquestra
no estúdio "Starstruck", em Nashville.

Com belos arranjos e a marca registrada do cantor, no que se refere à qualidade, o disco é produzido por Fred Mollin e foi gravado nos estúdios “The Tracking Room” e “Starstruck” em Nashville; além do lendário estúdio Capitol, em Los Angeles.  Mathis alia novos músicos com antigos companheiros, a quem ele sempre se mantém fiel nas gravações e nos shows, como Scott Lavender (seu maestro há décadas) e o violonista Gil Reiger, que também o acompanha há mais de 30 anos.


Ainda não há previsão para lançamento desse disco pela filial brasileira da Sony Music. Porém, hoje em dia, isso não chega a ser um problema devido à facilidade de comprá-lo através de sites como o Amazon.com, ou baixar oficialmente as músicas através do iTunes.

 O Produtor e guitarrista Fred Mollin, no estúdio "The Traking Room", em Nashville.

Johnny Mathis grava com Nathalie Cole, filha de Nat King Cole, nos estudios Capitol, em Los Angeles.


terça-feira, 2 de julho de 2013

#AC - ANA CAROLINA


Com refinamento musical, uma sonoridade moderna e a ousadia de se permitir experimentações, Ana Carolina consegue a proeza de fazer muito sucesso, estar na chamada "mídia" e, ao mesmo tempo, fazer parte da elite da MPB.  Num tempo em que, de regra, grandes sucessos possuem qualidade duvidosa e música de qualidade costuma não fazer sucesso, Ana Carolina é uma das raras exceções, capaz de alimentar a esperança de que nem tudo está perdido no cenário musical brasileiro.

Após 4 anos do lançamento de seu último disco de estúdio, ("N9ve", um disco basicamente introspectivo), Ana Carolina está lançando "#AC", novo álbum de inéditas, no qual transita por uma multiplicidade de conceitos e consegue aliar o contemporâneo ao tradicional, o impacto à sutiliza e o eletrônico ao orgânico.  Concilia scratches do Dj CIA com loops eletrônicos e ritmos como samba e tango. Não tem bateria acústica em nenhuma das faixas, substituída por programação eletrônica.

Logo de início, "#AC" abre com um pequeno interlúdio em que cita instrumentalmente "O Voo do Besouro", da ópera "O Tzar Saltan" do compositor russo Korsakov. Daí parte pra esfuziante "POLE DANCE", música em que traça um perfil da garota de programa de "night clubes", com arranjo de metais em brasa, do "Mago do Pop" Lincoln Olivetti.

A segunda faixa, "ESPERTA", segue a mesma linha musical, com arranjos, letras e back-vocais quentes.  Também na mesma linha abrasada, "BANG BANG 2" é mais impactante ainda. Promove um verdadeiro "tiroteio" entre elementos como guitarras, orquestra de cordas, loops eletrônicos e percussão. Traz também um refrão marcante, daqueles capazes de grudar na mente das pessoas.  

Fazendo alusão no título à "Pelo Telefone", de Donga, (1917 - primeiro samba gravado no Brasil), Ana Carolina apresenta "PELO iPHONE", misturando samba com choro e música eletrônica, numa letra que trata com humor das vantagens e dos problemas da nova tecnologia dos smartphones. 

"MAIS FORTE", apesar de toda a roupagem eletrônica, traz a atmosfera, a sonoridade e muitos elementos rítmicos do tango. "CANÇÃO PRA TI" destaca-se pela letra grande e criativa, em que o interlocutor busca inspiração em diversos nomes e suas obras relevantes, para fazer uma canção à altura de seu sentimento ("Que tenha algo em excesso ou algo excelso/ Como uma peça, um ato de Zé Celso/ Como um poema de Augusto de Campos/ Ou como um rock de Arnaldo Antunes/ Que toque nos iPods e no iTunes").

Vale lembrar que o símbolo que faz parte do nome do disco, "#", (lê-se hashtag) é usado na internet para apontar palavras-chave, proporcionando conexões entre links, comentários ou fotos na rede.  E é justamente esse o "espírito" desse disco: O de conexões.  Conectando o passado ao presente e misturando a sonoridade tradicional do samba de botequim com a intervenção eletrônica, uma das melhores faixas do disco é "RESPOSTA DA RITA", musica em que Ana Carolina encarna a personagem de "A RITA", de Chico Buarque, dando a ele a resposta às suas reclamações cantadas na letra original da década de 60.  Na música nova, Ana Carolina canta: "Não levei o seu sorriso / Porque sempre tive o meu / Se você não tem assunto / A culpada não sou eu”, em resposta aos versos “A Rita levou meu sorriso / No sorriso dela, meu assunto”.  O mais interessante é que a nova música foi toda construída sobre a mesma harmonia musical de "A Rita", gravada pelo Chico, o que possibilitou a fusão da música nova com a original, com a participação do próprio Chico Buarque, sobrepondo sua música à resposta de Ana Carolina.

"LEVEZA DE VALSA", com a participação do violonista Guinga, e "LUZ ACESA" são duas músicas sensíveis com belas melodias e letras inspiradas.  "UN SUEÑO BAJO EL AGUA", com a participação de Chiara Civello, é uma música experimental, com conceito de sonoridade bem fora do comum. Isso, no entanto, não foi empecilho para que o vídeo dessa música obtivesse grande êxito no YouTube!!  A capa do disco é, visivelmente, inspirada nessa música.

Um excelente disco. Nas lojas a partir desse mês de Julho. Um verdadeiro antídoto para a onda de músicas ruins que atacam nossos ouvidos!! Viva a qualidade musical que ainda insiste em sobreviver!

sexta-feira, 8 de fevereiro de 2013

Paixão que vem do berço

Reproduzo, abaixo, matéria de Aleks Andrade publicada no jornal Diário do Rio Doce (de Governador Valadares - MG) de Sexta-feira, 8 de Fevereiro de 2013, que me apresenta como um fã e colecionador do trabalho do cantor Roberto Carlos.

Dessa vez não sou eu que escrevo. Sou o escrito. Espero que gostem.
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PAIXÃO QUE VEM DO BERÇO

por ALEKS ANDRADE Aleks@drd.com.br

O PRODUTOR musical repara até nos pequenos detalhes dos discos lançados pelo cantor e coleciona os mais inusitados



A seção “Sou fã de...” de hoje traz um artista consagrado no meio musical brasileiro e mundial, e não é à toa que ele é considerado o Rei da Música Popular Brasileira (MPB). Roberto Carlos tem admiradores por várias partes do país e do mundo, e em Governador Valadares reside um deles. O produtor musical Marlos Chambela não só aprecia o trabalho do artista como também é influenciado pelo ídolo quando se trata de exercer sua profissão. 

O produtor musical conta que tem o hábito de ouvir quase diariamente músicas aleatórias de Roberto Carlos ou algum disco do cantor. “Sempre ouço suas canções e também acompanho suas apresentações na TV. Não sou de ir a shows, fui apenas a dois shows de Roberto em toda a minha vida: um no ano de 2001 e outro em 2006. Mas de qualquer forma tenho o costume de acompanhar sua carreira. Uma busca por ‘Roberto Carlos’ no Google é praticamente algo automático para mim. Me informo também acompanhando as atualizações de sua assessoria nos canais oficiais de divulgação do cantor.”

De acordo com Chambela, a admiração pelo trabalho de Roberto Carlos vem desde quando ele era criança. “Desde que nasci aprecio o trabalho de Roberto Carlos. Há relatos de familiares sobre momentos em que, quando eu ainda era bebê, as pessoas percebiam minha reação quando colocavam um disco dele para tocar. Eu mesmo me lembro de momentos relacionados ao Roberto, numa época em que eu era bem pequeno, como por exemplo, o dia do lançamento de seu LP de 1981, quando eu tinha apenas 4 anos. Acordei com as músicas tocando no rádio, e na época as rádios tocavam o disco inteiro no dia de seu lançamento. Procurei minha mãe e fui informado que ela havia saído e que iria trazer o disco novo. Nesse dia ela voltou com o LP e o colocou pra tocar, enquanto eu ouvia as canções diante do toca-discos olhando o LP rodar.”, relembra.

Além da admiração pelas músicas, o produtor musical também coleciona objetos artísticos relacionados ao cantor. "Coleciono discos, CDs e DVDs do Roberto. Apesar de não ter a coleção completa [faltando pouquíssimos exemplares dos discos mais antigos], tenho algumas cópias repetidas de determinados discos, devido a pequenas diferenças de conteúdo. Detalhes que quase ninguém repara, eu observo e acabo comprando só pra colecionar, como, por exemplo, um disco de 1989 que em algumas edições veio com as músicas numa sequência, e em outra edição saiu com elas em outra ordem; ou um CD de 1999 que foi lançado com uma foto na contra-capa e nas edições seguintes teve a foto trocada", explica.

Para Chambela, seu disco preferido do Rei é o de 1981, que tem músicas como "Emoções", "As Baleias" e "Cama e Mesa". "Gosto do disco não por questões afetivas e de lembranças, mas pela produção impecável, tanto pelos arranjos musicais como também por aspectos técnicos.  Gosto também de uma música gravada em 1992, chamada "Você, Como Vai?", que me prende por causa do arranjo e pela interpretação forte do cantor. Talvez essa canção seja a minha favorita entre todas as outras. A música "Mais Uma Vez" [composição de Carlos Colla, gravada em 1978] tem, talvez, uma das melhores letras que conheço. Também gosto muito de "Eu Preciso de Você", de 1981, "Sua Estupidez", de 1969, e "Do Fundo Do Meu Coração", de 1986", conta.

Apesar de não conhecer Roberto Carlos pessoalmente, Chambela mantém contato com alguns músicos que trabalham com o artista e acredita que as músicas do Rei têm influência em sua carreira como produtor musical. "Conheço algumas pessoas que trabalham diretamente com ele, como técnicos e músicos, e mantenho uma amizade mais pessoal com o maestro Eduardo Lages. Em grande parte o trabalho do Roberto influencia o meu. Apesar de, como produtor musical, eu ter que ser eclético quanto a estilo, eu admiro no Roberto uma qualidade que até é muito criticada por alguns músicos: a limpeza de elementos musicais. Não existe muita coisa poluindo a sonoridade nos discos dele, deixando o foco direcionado mesmo em sua interpretação. É um conceito onde o que tem que se destacar é a música, e não a habilidade do músico instrumentista", opina.

Para quem ainda não conhece o trabalho de Roberto Carlos ou queira se aprofundar na carreira artística do cantor, Chambela faz algumas recomendações. "A carreira de Roberto tem diversas fases: o rock ingênuo da Jovem Guarda; a fase em que ele foi um dos precursores do soul no Brasil, e pouca gente sabe disso, mas ele foi o primeiro a gravar uma composição de Tim Maia e, quando esse despontou para o sucesso, Roberto já havia gravado pelo menos dois discos influenciados pela soul music. Tem o Roberto mais romântico; tem o de músicas de temas mais sensuais; o de temas religiosos, entre outros. Depende do estilo musical de quem deseja pesquisar. Sempre vai haver, nem que seja apenas uma música do Roberto, que se encaixe no estilo de alguém", afirma.