sábado, 4 de fevereiro de 2012

"KICKS" ON THE BOTTOM



        Ao ouvir pela primeira vez o novo disco de Paul McCartney, a impressão que se pode ter é a de que houve algum engano. "Espere aí... Esse é mesmo o disco do Paul??" Para quem conhece e gosta de Paul McCartney pela sua personalidade musical eternamente jovem, esse disco chega a chocar pela falta de algo empolgante. Não que seja um disco ruim ou mal feito. Pelo contrário: O disco é muito bem produzido, traz arranjos preciosos... Um belo trabalho!  Mas é chato. Praticamente um sonífero.

        Paul conta que as canções que estão no novo disco são músicas que ele ouvia seu pai, que era pianista, tocar em casa. São clássicos que ele escutava quando criança e que, segundo ele, inspiraram algumas de suas composições em parceria com John Lennon, quando faziam parte da banda The Beatles. Não dá pra negar que músicas como “Yellow Submarine” e “Honey Pie” têm realmente alguma influência dos jazz masters dos anos 20, 30 ou 40... Mas Paul foi longe demais nesse disco.  No intuito de revisitar suas origens, ele mergulhou fundo em músicas imortalizadas por Nat King Cole, Frank Sinatra, Gene Austin, Ella Fitzgerald e Bing Crosby, resultando em algo que não se parece nada com ele mesmo.  Um disco que é muito bom, mas que não soa como Paul McCartney. 

        Para fazer esse disco, Paul contou com os préstimos do produtor Tommy Li Puma e da atual “dama” do jazz Diana Krall, que além de participar ao piano, trouxe toda sua banda para a gravação desse disco. Para completar o clima, as gravações foram feitas no lendário estúdio da Capitol Records, onde Nat King Cole e Frank Sinatra gravavam seus discos. Em termos de arranjos e produção, não há o que se dizer de mal. Tudo muito bem feito. No entanto, seria melhor se os playbacks desse disco ganhassem outra voz que fosse mais própria do gênero (talvez até a da própria Diana Krall) e que o Paul que conhecemos (empolgante) brilhasse em músicas que se encaixam melhor em seu estilo.

        Entre as velhas canções das décadas de 20, 30 e 40, Paul inclui duas músicas inéditas, de sua autoria, seguindo o molde das demais faixas do disco.  Apesar de serem feitas no estilo de músicas antigas, as duas inéditas são as melhores faixas do disco, e trazem as participações de Eric Clapton (“My Valentine”) e Stevie Wonder (“Only Our Hearts”).

        À parte do conteúdo do disco, o maior impacto causado por esse lançamento foi em torno do título dado a ele.  “Kisses on the bottom”, que em tradução literal significa “beijos na parte de baixo” ou “beijos no fundo”, pode ser entendido na gíria como “beijos no trazeiro” ou, como costuma-se carinhosamente dizer: “beijunda”.  No entanto, a expressão foi tirada de uma frase da primeira faixa do disco, “I'm Gonna Sit Right Down and Write Myself a Letter”, em que a letra fala de uma carta escrita com beijos ao final dela, na parte de baixo da página.  O trocadilho infame deu ainda mais evidência ao lançamento do disco.

        Um ótimo disco para se ouvir, apreciar uma vez e guardar na estante.  Bonito, bem feito...  Mas cansativo de se ouvir.  Vale mesmo como curiosidade musical e como item de coleção para os fãs de carteirinha do Paul ou para os Beatlemaníacos mais obstinados.

Um comentário:

Ary Handler disse...

Marlos,
Pois eu achei genial.
O Paul simplesmente muda a sua "identidade musical" e assume uma "persona" mais cantor.
Abraço,
Ary